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''Triplex'' em favela vira hospedagem VIP para a visita do Papa ao Rio

Moradores da Varginha e do Vidigal se inscrevem para receber fiéis. JMJ será a 1ª viagem internacional de Francisco, entre 22 e 28 de julho.
Cadastrada em 05/06/2013 08:39:25
Por Tássia Thum - G1, no Rio
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José Carlos da Silva em sua casa no Morro do Vidigal, Rio de Janeiro  Foto por Tássia Thum/G1
Com a oferta escassa de quartos em apartamentos na Zona Sul do Rio, as favelas se tornaram locais cobiçados pela organização da Jornada Mundial da Juventude, para hospedar os peregrinos. As lajes alcançaram o status de área VIP, onde é liberada a vista do mar e do Cristo Redentor. Menos famosa, mas não tão longe dos holofotes desde que foi anunciada como a comunidade que vai receber o papa no país, a comunidade da Varginha, na Zona Norte, também atrai fiéis que disputam espaço nos puxadinhos para ver de camarote a bênção de Francisco.

Os becos estreitos do Vidigal, no Leblon, levam à casa de José Carlos Silva, mais conhecido como Seu Cacá. O caminho é recompensado quando se chega à janela e se vê o Morro Dois Irmãos e a Praia do Leblon. O triplex, como ele gosta de se referir ao seu imóvel de três andares, foi cadastrado para receber até 10 peregrinos. Com a reforma do terraço, ele pensa em colocar redes para acomodar um número maior de hóspedes.

“Eu sempre faço um ritual de oração quando acordo. Eu agradeço a Deus por mais um dia. Tudo se torna ainda mais especial com essa vista, aos pés do Redentor. Tenho certeza que os peregrinos se sentirão abençoados aqui”, diz Cacá, que prefere receber turistas estrangeiros, para relembrar os tempos de quando morou em países como Estados Unidos, Grécia, França, Canadá e Japão.

Em cada parte do imóvel, é possível perceber a devoção de José Carlos através dos símbolos: imagens de Jesus Cristo, símbolo da Cruz, a reprodução da Santa Ceia e a Bíblia Sagrada. O apego, ele explica que começou há 20 anos, quando buscou ajuda para se livrar do alcoolismo. “Eu tenho gratidão com a Igreja, por isso não vou cobrar nada para hospedar as pessoas aqui, mas quem quiser ajudar com alguma contribuição para o lanche, ficarei grato. Hoje a favela tem uma boa estrutura, inclusive tem uns três ou cinco albergues, que vivem lotados, principalmente de gringos”, contou Cacá.

Subúrbio, Zona Oeste e Baixada Fluminense
A Irmã Graça Maria, diretora executiva do setor de hospedagem da JMJ, explica que a maior oferta de quartos está em bairros da Zona Oeste, Subúrbio e Baixada Fluminense. Em 14 de maio, a organização do evento já tinha 276 mil leitos cadastrados, número superior ao de peregrinos, que até a data era de 200 mil, sendo que 140 mil deles optaram pela hospedagem na inscrição.

“Essas regiões [Zona Oeste, Subúrbio e Baixada Fluminense] tem casas maiores, sítios, e por isso o número maior de vagas. Na Zona Sul, as residências são pequenas, muitas de apenas um quarto”, disse a freira, acrescentando que o Colégio Santo Inácio, em Botafogo, e o campus da UFRJ, na Praia Vermelha, ambos na Zona Sul, vão acolher um número superior a mil peregrinos.

Segurança veta cerca de 60% das escolas municipais
Graça Maria destaca que mais de mil escolas municipais foram colocadas à disposição, mas que apenas cerca de 40% delas foram aprovadas pela Secretaria da Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos (Sesge), do Ministério da Justiça, como locais seguros para acomodar os peregrinos.

“Todos os imóveis inscritos para receber os participantes da Jornada são vistoriados por voluntários e avaliados pela Sesge, para que possamos manter a integridade e segurança dos jovens”, ressalta a Irmã.

Da Faixa de Gaza à Terra Santa
A comunidade da Varginha, no Conjunto de Favelas de Manguinhos, na Zona Norte do Rio, que antes era notícia pelos constantes tiroteios da “Faixa de Gaza” – como era chamada a área de conflito – ganhou repercussão no início do mês, assim que o Vaticano anunciou o passeio do Papa no local, que inclui ainda uma visita à casa de uma família ainda a ser selecionada pelo arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta.

Apesar da instalação da uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) neste ano na Varginha, a moradora Lucila Irineu fica apreensiva com a segurança do Papa no local. “Na verdade, não é só aqui [na Varginha], eu não acho o Rio o lugar mais tranquilo do mundo. Estou rezando por uma estadia tranquila e que a vinda dele traga muita bênção e proteção”, sonha Lucila.

A comunidade que vai receber o maior representante da Igreja Católica é rodeada de igrejas evangélicas. No entanto, a diferença de religião não é vista como problema para Lucila. Para a moradora, a presença do Papa vai mobilizar toda a comunidade, que vai acompanhar os passos de Francisco através das frestas das janelas ou espremida em meio ao bloqueio da segurança.

“Esse Papa é muito humilde, por isso acho que escolheu a comunidade de Manguinhos, que é bem carente. Acho que a visita dele vai trazer mais união e simplicidade para as pessoas”, argumenta Lucila, acrescentando que até julho, mais vizinhos também deve receber jovens para a JMJ.

Churrasco na laje
A manicure Maria Aparecida Félix, 49 anos, programa um autêntico churrasco na laje para seus hóspedes. A casa fica no circuito de cerca de 50 metros que o Papa vai fazer na Varginha.

“Vai ser uma honra receber o Papa em nossa comunidade, foi uma surpresa para todos nós a escolha da Varginha”, diz a moradora, em companhia da filha Vanessa, de 21 anos.

De acordo com a organização da JMJ, a distribuição dos peregrinos pelos bairros ainda não foi definida. As áreas serão distribuídas por zonas linguísticas, para facilitar a comunicação entre os jovens. A Irmã Graça Maria explica que homens e mulheres ficarão separados nos alojamentos. As regras de convivência incluem ainda horário de entrada e saída, arrumação do local e o mínimo de um chuveiro para cada 15 pessoas.

“Alojamento é para dormir e fazer higiene pessoal. Nos dormitórios não é necessário ter cama, se tiver, é luxo. O peregrino deve levar sempre o seu kit, que tem como item indispensável, o colchonete ou saco de dormir”, observa a freira.

As taxas de inscrição variam de R$ 106 a R$ 608. Os valores mudam de acordo com o pacote, que pode incluir alimentação, transporte e hospedagem. Mais informações estão no site da Jornada Mundial da Juventude.