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Parque São Bernardo ganha centro cultural

Cadastrada em 13/05/2013 08:53:47
Por Daniele Tavares - Diário do Grande ABC
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Divulgação  Foto por Diário Online
Em meio à enorme população do Parque São Bernardo, os Lemes se destacam. Nomes como Antonio da Silva Lemes, Dona Cotinha, Ditinho da Congada, Zé Neguinho e outros cerca de 30 integrantes da família são conhecidos e respeitados onde moram, região carente da cidade.

Desde 1965, quando chegaram a São Bernardo, eles fazem a diferença para a comunidade com projetos sociais e culturais. Hoje, mais um dos planos da família sai do papel: o Centro Cultural Família Lemes. O espaço abre as portas para a comunidade com o objetivo de ser um ponto de referência para o bairro, onde pessoas de todas as idades possam usar o ambiente como ponto de encontro, local de aprendizagem e uma espécie de escritório. "Quero que aqui seja palco de discussões sociais, quero um líder que saiba desenvolver isso. Com esse ambiente, temos mais força para lutar por melhorias. Quando uma autoridade visitar o bairro, não irá conversar com as pessoas na rua e sim aqui dentro, em um ambiente seguro e próprio para isso", diz José da Silva Lemes, idealizador e responsável pelo projeto.

Zé Neguinho, como é conhecido por todos na região, diz que muitas pessoas ofereceram dinheiro para ajudar a levantar a obra, inclusive políticos, mas que nunca concordou com esses favores. A recusa foi uma maneira de evitar futuras cobranças. "Eu subi esse prédio com meu próprio esforço e com o dinheiro do meu bolso. Esse é o meu sonho e eu quis que fosse 100% ‘eu e minha família' aqui". Há mais de dez anos, 30% da renda mensal do pintor é destinada ao Centro Cultural. "As pessoas passavam aqui no começo e zombavam do que era essa casa, achavam que nunca daria em nada, chegaram a perguntar se eu tinha virado tatu para viver no meio de terra. Hoje, graças à ajuda do meu falecido pai e ao apoio da família, eu consegui e espero que todos estejam aqui para ver o bem que essa comunidade vai ter", diz Zé.

DATA ESPECIAL

A data de hoje não foi escolhida à toa para a inauguração do centro. Além de ser um dia importante para a população afrodescendente, já que marca a assinatura da Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil em 1888, é também o aniversário da mãe de Seo Antonio, pai de Zé Neguinho e o primeiro da família a chegar à cidade. "Dia 13 de maio é um marco para minha família, a minha avó estava nascendo e a nossa história estava ganhando forças. Aqui dentro do centro eu quero montar um museu da nossa família, para explicar toda a nossa história, ter um acervo de tudo o que conquistamos, e mais do que isso, manter nossas raízes. Quero que as crianças aprendam além do que a escola oferece, quero que elas saibam o que está por trás dos livros e que realmente entendam a história do povo negro", diz o irmão, Benedito da Silva Lemes, o Ditinho da Congada.

O centro vai servir como uma anexo da escola para as crianças. "Aqui elas vão poder aprender a tocar instrumentos, a mexer no computador e a ter opções. Quero que esses meninos saiam da rua e tenham instrução de qual caminho seguir", declara Zé. Porém, sem esquecer das outras idades, Zé afirma que todos terão oportunidades dentro do centro. "Esse projeto é para que todos se sintam à vontade aqui dentro. Se um senhor de 65 anos quiser aprender a tocar violão junto de uma criança de 10, ele vai aprender. Além do que, eu quero que aqui seja um ponto de encontro para eles se reunirem em um fim de tarde para jogar papo fora e fazer uma moda de viola" afirma.

Para o morador Oscar Cernoski, o centro irá trazer aproximação entre as pessoas do bairro. "Eu e mais três tocamos viola por aqui, mas cada um no seu canto. Acredito que agora, teremos um espaço para nos juntarmos, trocarmos experiência e quem sabe gerar interesse na criançada de aprender esse instrumento", se alegra, ao imaginar como será o espaço.

Tradições do clã do Parque São Bernardo ajudam o bairro

Começa tudo pela figura do Seo Antonio da Silva Lemes, morto em 2006. Vindo de Minas Gerais, o patriarca, junto de mais três vizinhos, começou as construções no Parque São Bernardo. "Eles estão juntos desde sempre e começaram a tirar o mato e a levantar as casas por aqui. Quando meu avô estava vivo, eles sentavam e eram horas, até dias, contando histórias que você nem imagina", afirma Diana Andréa Lemes.

Depois de anos morando em São Bernardo e viajando com os filhos a Minas para participar da Congada - evento folclórico de influência africana -, Seo Antonio decidiu formar um grupo por aqui, que hoje é um dos maiores do Estado. São 50 integrantes, dos quais 60% pertencem à família Lemes. Segundo Ditinho da Congada, as pessoas fazem questão de continuar com essa tradição. "Nenhuma das pessoas que frequentam a Congada está lá obrigada, todas sentem prazer e honra de fazer parte dessa ‘característica' da família".

E as tradições do clã não pararam por aí. Hoje eles mantêm a Escola de Samba Renascente, um projeto social parecido com o da Mangueira, onde reúnem toda a comunidade para as produções durante o Carnaval.

A família também tem compromisso social com o Parque São Bernardo. Todos os anos, no Natal, realiza um ‘banquetão'. Na última contagem, 7.000 pessoas participaram. Além das refeições diárias que a família distribui, Dona Cotinha, a viúva de Seo Antonio, abre a casa para, pelo menos, 40 pessoas se alimentarem todos os dias. "O sonho da mãe é que ninguém precise bater de porta em porta pedindo comida, por isso a nossa está sempre aberta", afirma Ditinho, o filho mais velho.

O objetivo da família é poder realizar algo pelo próximo. "Se as pessoas fizessem um pouco mais pelos outros e não pensassem só em si, todos estaríamos melhor e quem não tem nada teria ao menos o que comer", diz Ditinho.